Como alguém que tem servido na igreja por mais de quatro décadas, já vi movimentos surgirem e desaparecerem, modas ganharem força e depois caírem, e inovações que tanto serviram quanto sabotaram a missão de Cristo. No entanto, nos últimos anos, parece que a linha entre ortodoxia e novidade se tornou tão turva que o crente comum luta para discernir o que é sagrado do que é absurdo. Neste artigo, quero abordar 10 práticas sem base que têm emergido no cristianismo contemporâneo — algumas nascidas da ignorância, outras da arrogância espiritual, e outras de uma compreensão distorcida das Escrituras e da tradição da Igreja.


1. Ver a Bíblia e a Igreja Através da Lente do NAR

Vivemos em uma era onde o discernimento degenerou em paranoia. Para muitos, a chamada Nova Reforma Apostólica (NAR) se tornou o novo “bicho-papão”. Existem preocupações legítimas com certos excessos dentro do NAR, mas igualmente preocupante é o surgimento de um contra-movimento que enxerga tudo — desde o envolvimento político até a palavra “apostólico” — como parte de uma conspiração global maligna. Cada sermão, cada livro, cada pregador é visto com suspeita. A tragédia é que, em vez de ver Cristo em cada passagem, alguns veem apenas o NAR. O foco mudou de Jesus para o medo. Isso não é discernimento; é caça às bruxas teológica.


2. Julgar Irmãos Publicamente nas Redes Sociais Sem Processo Eclesiástico

O apóstolo Paulo orientou a igreja de Corinto a resolver questões internamente (1 Coríntios 6). Hoje, no entanto, a igreja delegou esse papel às redes sociais. Cristãos assumem o papel de juiz, júri e executor sem qualquer processo bíblico ou estrutura eclesiástica. As redes sociais se tornaram um tribunal, onde reputações são destruídas com um clique. Essa prática ignora o padrão bíblico de prestação de contas e expõe o analfabetismo bíblico e a imprudência espiritual generalizada. A igreja não é uma multidão descontrolada; é uma família governada por anciãos, e não pelo ódio online.


3. Convocar Presunçosamente os “Tribunais Celestiais”

Nos últimos anos, o ensino sobre os “tribunais celestiais” ganhou popularidade em certos círculos carismáticos. A ideia é que alguém pode convocar um tribunal celestial para quebrar maldições ou ataduras espirituais. Embora Deus seja, de fato, um Juiz justo, em nenhum lugar das Escrituras vemos os mortais iniciando sessões no céu. Em Isaías 6, 1 Reis 22:19-23 e Apocalipse 5, é sempre Deus quem abre o tribunal, nunca o homem. Presumir o contrário é cair em presunção espiritual. Não comandamos o céu; nós respondemos a ele.


4. Agendar Visitas ao Céu

Já ouvi pessoas dizerem que podem providenciar minha “viagem ao céu” por meio de alguém que seguem no Facebook. Como se o céu fosse um destino turístico administrado por um agente profético. Isso não só é absurdo, como também espiritualmente perigoso. As Escrituras retratam encontros celestiais com reverência e temor. O próprio Paulo evitou falar de sua visão do céu (2 Coríntios 12), e hoje há quem agende isso como se fosse uma chamada de vídeo. Essa prática banaliza a santidade de Deus.


5. Assumir Títulos Sem Frutos

Vivemos uma época em que muitos se autodenominam bispos, líderes apostólicos ou até doutores, sem apresentar os frutos, o caráter ou as qualificações correspondentes. Títulos sem transformação são vazios. Se alguém não foi testado, discipulado ou afirmado por uma autoridade espiritual legítima, assumir esses papéis é autoengano. Pior ainda, muitos ostentam diplomas de instituições falsas, o que mina a credibilidade do ministério genuíno. O Reino não avança com títulos, mas com substância.


6. Comunhão com Santos Falecidos

A necromancia foi condenada no Antigo Testamento (Deuteronômio 18:10-12), mas hoje alguns líderes afirmam receber conselhos de santos falecidos (ver 1 Samuel 28). Outros promovem a oração a santos, apesar de o Novo Testamento ser claro ao dizer que só há um mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo (João 14:6; 1 Timóteo 2:5). Comunicar-se com os mortos ou buscar sua intercessão fora de Cristo não é apenas antibíblico — é espiritualmente perigoso.


7. Usar o Calendário Hebraico Para Guiar a Igreja

Profetas contemporâneos têm usado o calendário judaico para declarar mandatos divinos baseados em significados numéricos ou místicos. Embora o calendário do Antigo Testamento tenha significado histórico e redentor, usá-lo como ferramenta principal para a Igreja é confundir os pactos e cair em uma espécie de cabala cristianizada. A Igreja do Novo Testamento é guiada pelo Espírito Santo, pelas Escrituras e pela tradição apostólica, não pela numerologia judaica.


8. Liberar Palavras Proféticas Sem Prestação de Contas nas Redes Sociais

1 Coríntios 14:29 ordena que as profecias sejam julgadas por outros líderes espirituais. Porém, hoje vemos vozes não testadas, sem prestação de contas ou vínculo com igrejas locais, liberando palavras proféticas para milhares de pessoas nas redes sociais. Quem são seus pastores? Quem os discipula? Qual o estilo de vida que levam? Essa falta de contexto não é profecia; é anarquia espiritual. O ministério profético genuíno nasce da igreja local e é validado pela comunidade, pelas Escrituras, pela responsabilidade e pelos frutos.


9. Construir Igrejas em Torno de Mega-Personalidades e Não de Cristo

Criamos plataformas maiores que os púlpitos, e celebramos mais os líderes do que o Senhor que dizemos servir. Quando igrejas são construídas ao redor do carisma de uma pessoa e não do caráter de Cristo, o colapso é inevitável. Já estamos vendo isso acontecer: pastores-celebridade em burnout, escândalos morais e igrejas que desaparecem quando o “astro” sai do palco. Paulo disse: “Não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor” (2 Coríntios 4:5). A igreja nunca deveria girar em torno de homens.


10. Medir o Sucesso Pelo Tamanho da Multidão e Não Pela Formação de Discípulos

Em nenhum lugar da Bíblia ou da tradição apostólica somos chamados a atrair multidões. Nosso chamado é fazer discípulos (Mateus 28:19). Claro, evangelizar é essencial, mas muitas igrejas confundem atração com transformação. Um prédio cheio não significa corações cheios. A igreja primitiva não se estruturava em eventos, mas em formação espiritual e comunidade de aliança. Se só medirmos pelo tamanho, falharemos em medir o que realmente importa.


Conclusão

Essas práticas compartilham uma falha comum: substituem a fidelidade bíblica pela inovação humana. Revelam uma Igreja que, em muitos casos, perdeu seu fundamento. A resposta não está nos extremos reativos, mas no retorno às Escrituras, à ortodoxia centrada em Cristo e à sabedoria do Espírito, enraizada na fé histórica. Devemos reformar, não com suspeita, mas com clareza e convicção, fundamentados na verdade e temperados com amor.

Que a Igreja volte a ser Igreja.

PERSPECTIVES WITH JOSEPH MATTERA

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